Helloween, O Crespúsculo dos Deuses

Helloween, O Crespúsculo dos Deuses

Nero

Em 1987, os Helloween tornaram-se a banda de heavy metal mais importante da época, vivendo um período áureo que durou até ao fim da década e no qual, unindo as pontas do que os Iron Maiden, os Rainbow e os Judas Priest tinham construído, criaram um novo sub-género.

O power metal é um assunto muito mais entusiasmante para aqueles que, gostando do heavy metal, são ávidos leitores de romances high fantasy. Mas não deixa de ser um assunto sério, que diz respeito a uma era em que a música rock dominava as tabelas do mundo inteiro e na qual, as grandes editoras, procurando a next big thing davam carta branca às bandas e aos produtores para explorarem o seu som sem barreiras de criatividade impostas por objectivos comerciais. Resumindo, tudo era mais livre e mais excitante, fosse o thrash metal, fosse hard rock, fosse o hair metal, todos tiveram a sua época mais vibrante na década de 80.

Depois de vários anos com apenas os Scorpions como referência internacional, dentro das sonoridades mais rocker, a Alemanha começou a apresentar vários trunfos, fosse pelo aproximar do fim da Guerra Fria, fosse pela melhoria das condições de vida de uma nova geração de músicos já não tão cicatrizada pela Grande Guerra, fosse por que razão fosse… Vindas do final da década de 70, bandas como os Accept, Running Wild ou os Grave Digger abriram o “coração metálico” (pun intended) da Alemanha e logo no dealbar dos anos 80 surgiu a imponente vaga do teutonic thrash metal, capaz de ombrear com a cena de Bay Area e da East Coast.

O thrash seria a maior força do metal nos anos 80, contudo o speed, umbilicalmente ligado à NWOBHM, escancarou as portas a um novo género: o power metal.

AS MURALHAS DE JERICÓ

Kai Hansen tocava nos Gentry, com Piet Sielck (que viria a tornar-se um dos mais destacados produtores de heavy metal na Alemanha), mas como sucede com tantas bandas de putos, acabou. Então Hansen conheceu Markus Grosskopf, um baixista que vinha de uma escola punk rock, mas procurava outro som. Assim o baixista juntou-se ao guitarrista nos Second Hell, até que conheceram Michael Weikath, um guitarrista que amava The Beatles e a quem Van Halen havia batido com toda a força. Weikath tinha a sua banda, os Powerfool, que se tornou nos Helloween quando os três músicos, mais o saudoso baterista Ingo Schwichtenberg, se juntaram.

A Noise Records, editora que foi pivotal na criação da força do thrash alemão, aceitou as demos dos músicos e deu-lhes um contrato. No primeiro EP, o trabalho homónimo, e no primeiro álbum, “Walls Of Jericho”, a banda apresentava os traços comuns do efémero speed metal: muita velocidade e exigência técnica, tal como sucedia no thrash, embora com os vocais “limpos”, seguindo a potência NWOBHM dos Judas Priest e coros grandiosos como os Rainbow, para verbalizar ideias épicas. Com o dinamismo de “Mr. Smile”, a alcunha de Schwichtenberg, a propulsividade da banda tornou-se marcante. Este ciclo da banda foi um sucesso e para muitos puristas do speed metal esta era é a mais significativa dos Helloween.

Então na digressão de “Walls Of Jericho”, o sucesso da banda cresceu de forma exponencial. Contudo Kai Hansen enfrentou dificuldades na performance ao vivo, derivadas da exigência técnica instrumental das canções cruzadas com o seu trabalho vocal. Insatisfeito pela forma como ambos os papéis se condicionavam, preferiu concentrar-se apenas na guitarra. Daí surgiu a busca por um novo vocalista. Estava na altura da banda crescer ainda mais.

PROFECIA

Em 1986, os Ill Prophecy (Profecia Enferma), uma banda de liceu com influências como o NWOBHM ou o punk, gravaram a sua demo. “Riding The Wind”, “The Way Of Life”, “Heroes”, “You Always Walk Alone” e “A Little Time” eram os cinco temas de heavy metal que revelavam o extraordinário talento vocal de Michael Kiske. Um miúdo de 17 anos, na altura, com uma voz tenor capaz de, num espectro de quatro oitavas, atingir notas baritonais (E2) e explosivos agudos (A5). Os Helloween notaram o seu talento e, aos 18 anos, Kiske entrou para a banda. Em relação à voz de Kai Hansen, Kiske possuía maior vibração e notas mais cristalinas.

Kiske levaria consigo para a banda “A Little Time” e “You Always Walk Alone” e passou a ser uma cabeça extra na criatividade.

Com o novo vocalista, Hansen e Weikath concentrados na composição, os Helloween cavalgaram uma impressionante vaga que alastrava rapidamente por toda a Europa, chegando mesmo às casas portuguesas, através do mainstream de um super single como “The Final Countdown”, dos Europe, com elevada rodagem nos programas televisivos dos tops musicais. Cientes do impacto do heavy metal, os Helloween propuseram-se a criar um duplo LP – ideia recusada pelas editoras abordadas.

UM VISLUMBRE DO FUTURO

Assim, em vez de um único “Keeper Of The Seven Keys”, o álbum foi editado em dois LP, a parte I (1987) e a parte II (1988). Nos álbuns, agora com a vibrante voz de Kiske, aquelas características supra mencionadas dos Helloween passaram a soar com as arestas mais limadas. As guitarras, além da velocidade, de EVH, passaram a demonstrar uma maior ligação à melódica tradição dos Iron Maiden. As energéticas baterias de “Mr. Smile” ganharam um sentido mais rocker. O som da banda como que ficou mais “aberto”.

Fantasia cruzada com political awareness, a sociedade contemporânea diante da iminente queda do muro, e especificamente os próprios alemães. Em “Eagle Fly Free”, Kiske dizia-nos que estava na altura de abandonar a Guerra Fria, de unificação. Em “I Want Out” as letras são ainda mais directas.

Canções indissociáveis da unificação do país da águia bicéfala do Sacro Império Romano-Germânico, em que Kiske cantava versos épicos e impactantes, que ainda hoje ressoam no pensamento. «People are in big confusion they don’t like their constitutions / Everyday they draw conclusions and they’re still prepared for war / Some can say what’s ineffective some make up themselves attractive build up things they call protective / Well your life seems quite bizarre» ou «Hey, we think so supersonic and we make our bombs atomic or the better quite neutronic but the poor don’t see a dime / Nowadays the air’s polluted, ancient people persecuted / That’s what mankind contributed / to create a better time».

O humor também surgia, através da crítica social. Como em “Dr. Stein”, por exemplo, em que somos colocados diante daquilo que fazemos com a nossa vida e no tipo de monstros em que nos tornamos. «His assistant’s hips were nice so he cloned her once or twice / Now his hips are aching what a deal» ou como tentamos abusar daquilo que é para desfrutar e acabamos por arruinar o próprio prazer. De como criamos obsessões e nos deixamos oprimir.

Numa sociedade equilibrada constrói-se a utopia de “Future World”, um mundo do qual recebemos um vislumbre, mas ainda não estamos preparados para habitar. Ironicamente, a banda desequilibrou-se imediatamente diante do sucesso que foram os dois “Keepers”. Mais que o seu marcante som ou estilo musical, qualquer uma das partes de “Keepers Of The Seven Keys” tornou-se uma daquelas raras obras de convergência dos artistas com a era e a sociedade que os circundam, sumarizando fenómenos e epifenómenos que permitem criar uma cápsula temporal imemorial.

Estava criado um dos mais importantes álbuns da história do heavy metal, mas Kai Hansen não conseguiu gerir o impacto de Kiske e surgiram divergências entre os vários membros, mesmo durante a digressão de promoção ao segundo LP, com Hansen a abandonar a meio da tour, dando lugar a Roland Grapow em 1989.

ABÓBORAS REUNIDAS

Os Helloween criaram e refinaram o power metal como género musical, mas nesse breve período ficaram órfãos de Hansen. Assinaram por uma major label, a EMI, mas abdicaram da agressividade sónica que os tinha feito surgir. E a EMI, depois do insucesso de vendas do álbum “Pink Bubbles Go Ape” tomou a opção mais ridícula: fazer a banda abdicar ainda mais do heavy metal e da sua matriz e apontar a uma sonoridade ainda mais pop. O resultado foi o desastre ainda maior de “Chameleon”, o infame 5º álbum dos Helloween, o qual provocaria ainda a saída de Michael Kiske da banda, acusado de ter um ego insuportável.

Na ressaca desses problemas, também “Mr. Smile” abandonou a banda. Uma decisão que nunca conseguiu ultrapassar. Ingo Schwichtenberg perdeu o seu sorriso, afundou-se em episódios de esquizofrenia e acabou por pôr fim à sua vida, atirando-se para a frente de um comboio em 1995. É o único músico da formação clássica que não irá estar presente no concerto na Altice Arena.

As críticas aos concertos da Pumpkins United World Tour, depois de um arranque algo titubeante, têm sido extremamente positivas, destacando a cumplicidade entre os músicos e a forma considerável em que ainda se encontra a voz de Kiske. Depois do single que celebrou os 30 anos dessa formação (ouve no player em baixo), já se fala num novo álbum. No entanto, será improvável que seja tão bom como os “Keepers”. É melhor não perder o concerto na Sala Tejo, no dia 06 de Dezembro.