Os Mais Superlativos Concertos na História do RCA Club

Os Mais Superlativos Concertos na História do RCA Club

Nero

Os sete concertos que mais apreciámos em sete anos de existência que o RCA Club cumpre em 2021. A quantidade de “primeiras vezes” de bandas que outrora estavam afastadas de Lisboa e de Portugal, basta para destacar a importância da sala.

No sexto episódio do nosso podcast fomos até Alvalade, ao RCA Club. Ao longo de cerca de uma hora, o Sérgio Duarte abriu o livro de memórias para nos contar a história das origens da sala, que se confundem com a sua própria história pessoal e carreira musical. Enumerou algumas das injustiças a que o Estado (sem pretender aqui fazer qualquer associação partidária ou ideológica, apenas social) votou o sector, deixando-o praticamente ao abandono, e deixou um testemunho de férrea determinação em manter e desenvolver um espaço vital para os sons fora do mainstream no cartaz cultural lisboeta. Uma sala onde já vivemos alguns dos momentos mais gratificantes na nossa própria labuta.

São esses momentos que aqui recordamos e que dizem bem da importância da sala inaugurada, no final de 2014, no dia 29 de Novembro. Afinal, a grande maioria dos concertos que escolhemos trata-se da primeira vez que as bandas que os protagonizaram estiveram ou no nosso país ou em Lisboa. Vale a pena referir que, percorrendo esta lista ou pesquisando outras reportagens do nosso arquivo, são raros os casos em que o som da sala não esteve à altura dos concertos e das bandas. Uma vez que o RCA celebra oito anos em 2021, elegemos oito concertos.

Na verdade, sete concertos mais um. Afinal, a visita dos Saint Vitus a Lisboa, numa digressão que celebrou os 35 anos de carreira da banda, foi absolutamente histórica, mas os músicos estiveram um pouco aquém. Foi o primeiro concerto que vimos no RCA Club. Chegariam os riffs colossais de um álbum do cânone do heavy metal (e da sua derivação de bpms reduzidos, o doom) para tornar este concerto obrigatório nesta lista. “Born Too Late” faz parte das lendas, mas teremos nascido tarde demais para o ver e ouvir tocado em todo o seu esplendor. Como na Acrópole, as ruínas permanecem como agentes de imortalidade do poder das ideias. Visitá-la é, para uns, o acontecimento de uma vida, para outros, a mágoa de saber o que nunca irão ver, a não ser as suas ruínas

ENTOMBED AD (2019) | Se fosse preciso reforçar ainda mais a importância do RCA, bastaria dizer que foi aí que vimos o último concerto em Portugal do saudoso LG Petrov. Foi no final de 2019 quenos sentimos gratos à sala e ao espírito indómito de músico sueco que liderou os Entombed e, posteriormente, a versão AD. A sua postura incansável e o seu carisma contangiante alastraram pelo RCA, desde as primeiras notas dos Baest, banda que segue as veredas abertas pelos próprios Entombed nos anos 90, “poluindo” a prestação dos Aborted com um groove mais rocker (o que foi uma interessante surpresa) e assim redimensionando aquele compósito de blast beats e breakdowns, e pomoveram um tremendo ambiente entre todos os que esgotaram a sala lisboeta. E, depois, porque é graças a LG que podemos ver e ouvir ciclicamente o inigualável death ‘n’ roll dos suecos. Podem recordar a nossa review ao fabuloso concerto, neste link.

BLOOD ORANGE (2017) | Acompanhados no cartaz pelos Somber Rites, Carbine e Touché Amouré, os Code Orange, para a AS, foram os reis nesta noite de 2017. Vinham a conquistar uma reputação cada vez maior no underground e concertos como aquele que deram no RCA Club ajudam a perceber porquê. Na sua estreia em Portugal, com uma ferocidade extrema na prestação de cada músico, a banda potencia a miscelânea de estéticas presente na sua sonoridade e apenas deu tréguas ao público durante um único tema (num daqueles mais “suaves”, com a voz de Reba Meyers como protagonista), “Bleeding In The Blur”, do último álbum. “Forever”, aliás, foi o olho do furacão na setlist: Forever; Kill The Creator; My World; Bleeding In The Blur; The New Reality; I Am King; Bind You; Slowburn; Spy e The Mud. Aqui fica o relato completo dessa noite.

WOVENHAND (2017) | Num mundo que ainda retivesse capacidade de abertura ao mistério e ao deslumbramento, o concerto de Wovenhand teria esgotado, mas num mundo em que os “aviões são confundidos com estrelas” apenas meia sala assistiu ao místico concerto no RCA Club. O som cada vez mais pesado que David Eugene Edwards tem vindo a promover ao longo da discografia de Wovenhand ganha outro significado ao vivo, catapultado pelo colossal baixo de Neil Keener, e pela mão direita de Chuck French na guitarra. Metade dos Planes Mistaken For Stars, dão aos reverbs etéreos da voz e dedilhados de Edwards uma poderosa dimensão corpórea. Assim, em Lisboa a matriz ameríndia da sonoridade da banda foi amplificada pela agressividade do post-hardcore sem as rédeas de estúdio. Recorda aqui esse concerto inesquecível.

EYEHATEGOD (2015) | A histórica primeira vez que os colossos do bayou louisiano visitaram Lisboa (após um escasso par de visitas ao nosso país). Ainda Mike Williams não tinha subido ao palco, a banda ia fazendo o line check, e Lisboa já estava a ouvir uma das mais genuínas actuações artísticas dos últimos anos. De facto, as escassas notas de Jimmy Bower [que acabou por vir de Ampeg] na Gibson Sonex 180, que veio também com ambos os pickups montados, e as brincadeiras com Brian Patton, que foi arriscando, inclusivamente, alguns dos riffs clássicos de “Master Or Reality”, soavam a promessas de um concerto memorável, de uma banda única. E assim foi, decadência e glória, como dissemos na altura!

ACID KING (2015) | “Middle Of Nowhere, Center Of Everything” foi a introdução à primeira vez que os Acid King tocaram em Lisboa. Depois, o tema “Red River”, também do primeiro álbum após um longo interregno de LPs, trouxe os primeiros ecos da voz de Lori S. e daquele feérico timbre entre os agudos sabbathianos, em contraposição ao groove low end, e Grace Slick. “Silent Pictures” e “Infinite Skies”, também do recente álbum, acentuaram essa sensação. Sem manhas, apenas com vísceras e volume, Lori S. criou um paredão de guitarra! Fomos perguntar-lhe o que usava para processar o sinal e riu-se, dizendo: «Let me impress you with my pedalboard»… Um normalíssimo Cry Baby e um vintage Little Big Muff (basicamente, é um Big Muff sem potenciómetro de sustain), além de um afinador. A 1973 Gibson Les Paul Custom foi amplificada por um Marshall JCM-800, tal como em estúdio. Mais palavras e fotos aqui.

BURNING LIGHT FEST (2015) | Nunca se vira. Um festival que se propôs trazer à capital um cartaz repleto de bestas sonoras de sludge, doom, black metal e psych. A Arte Sonora foi parceira do festival, crente na ideologia da sua concepção – peso atrás de peso, culto fanático de amplificação e a fúria da qual o metal, digamos, mainstream abdicou. Infelizmente, o público não aderiu nos números necessários à vioabilidade da proposta e esta tornou-se a única edição do Burning Light que funcionou de forma perfeita no RCA Club e que deixou um amplo registo de concertos que ficaram tatuados na pele daqueles que estiveram presentes, casos das actuações de The Secret, Cowards, Tombstones, Mantar ou Oblivionized.

ESBEN & THE WITCH (2014) | Outra estreia no nosso país. Vieram com os Obsidian Kingdom e com os Sólstafir. Lutando contra um público pouco amistoso e, infelizmente, ruidoso que estava ali para ver uma das novas sensações do metal, os Esben And The Witch, com a colossal “The Jungle” acabaram por assinar um quadro de pintura perfeita. Uma sala que os menosprezou na primeira meia-hora, acabou a aclamá-los. A nossa reportagem, especificamente dedicada ao trio, referia: «Dizer que as rosas também possuem espinhos é um dos lugares mais comuns, usar isso como analogia à voz de Rachel Davies também não será, propriamente, revolucionário. Mas a intensidade tão doce quanto áspera de Esben And The Witch, também não desabrochou do nada. Com o álbum “A New Nature”, o trio mudou muitas coisas. O que não mudou foi um estranho sentido gótico que não é, exactamente, gótico. Uma melancolia bucólica rasgada pelo urbanismo punk que a colaboração com um guru como Steve Albini fez surgir».

FENDER