Capote Fest 2020, Um Feliz Retrato do Underground Nacional

Capote Fest 2020, Um Feliz Retrato do Underground Nacional

António Maurício
Inês Barrau

Fomos até Évora, a convite do Capote Fest 2020. No Alentejo, obviamente que comemos e bebemos bem. E quanto à música, bandas como Cancro, Baleia Baleia Baleia, Marvel Lima ou Miss Lava, prometia festa rija. Apresentamos as razões essenciais para o sucesso do festival e prémios aos melhores momentos.

Já lá vão cinco anos de Capote Fest! O festival da cidade de Évora celebrou a sua quinta edição nos dias 5, 6 e 7 de Março, no onde voltou a aplicar a fórmula de sucesso: misturando bandas emergentes com formações experientes e estabelecidas no panorama musical português. Todavia, tudo ainda muito contracultura, rufia, underground. Motivos suficientes para que a AS estivesse, fazendo parte desta experiência ecléctica que contou com performances de Cachapa x Dj Sims, semiCirco, Cancro, Baleia Baleia Baleia, Marvel Lima, ThrashWall, Pedaço Mau, Uaninauei, Miss Lava e DJ FatInch.

Se não leste a nossa entrevista com a organização do festival sobre «o passado e o futuro, os critérios de selecção, a descentralização musical e cultural em Portugal ou os maiores desafios até ao momento», podes fazer isso aqui.

Deixamos o balanço da nossa presença nesta edição de 2020 do festival alentejano.

O LOCAL // Antes de falarmos no festival em si, temos que referenciar a incomparável cidade de Évora. Reconhecida por uma vibrante vida académica, é também um excelente ponto turístico, com vários locais de interesse como a Capela dos Ossos e a Igreja de São Francisco, o imponente Templo Romano, a Praça do Giraldo, a Catedral ou o Museu de Évora. Se forem ao festival e à cidade pela primeira vez, vão conseguir ocupar todo o fim-de-semana entre concertos e visitas turísticas, tal como fizemos. Uma experiência “dois em um”, na qual apoiam o turismo e a cultura portuguesa. Évora agradece, Portugal agradece, os músicos portugueses agradecem e a equipa do Capote Fest agradece.

Sendo lamechas, apesar de vivemos num país pequeno, temos todos os recursos necessários para um circuito musical forte. Contudo, as bandas e os promotores esforçam-se para criarem concertos/ festivais/eventos e, por vezes, o público (e até a imprensa, aqui nos confessamos) não retribui na mesma moeda. Por isso, foi gratificante verificar uma adesão sólida ao Capote Fest (principalmente no segundo dia).

Chegar a Évora de carro é fácil, mas optámos pela opção mais amiga do ambiente e igualmente ágil: o Comboio. Menos de hora e meia e estamos em Évora, vindos de Lisboa. E para os críticos da centralização da cultura na capital e arredores, aqui têm uma boa oportunidade para apoiar essa descentralização.

AMIGO DA CARTEIRA// Não precisam de fazer mealheiro para ir ao Capote Fest. Os bilhetes não são caros. Para verem quatro bandas por noite pagam €7, se optarem por 1 dia. €10 para o passe de dois dias. E se aguentam bem a borga podem continuar a festejar com um DJ em ambas noites. Além disso, a imperial custa €1 e se fizerem bons amigos alentejanos ainda levam umas borlas. No Alentejo, a vossa barriga também fica cheia, sem a carteira ficar vazia.

O AMBIENTE// Sendo um festival de pequena dimensão, no Capote Fest sente-se um clima de fraternidade e proximidade. O público está, de facto, presente para ouvir música ao vivo, sendo pouco comum a utilização de telemóveis durante os espectáculos. E como o balcão das bebidas está no fundo da sala, podes fazer uma pausa e conversar sem perturbar as linhas da frente. As bandas, normalmente, também estão entre o público, antes ou depois dos concertos, criando uma ligação directa para partilha e conversas.

OS CONCERTOS // Apostamos com segurança que, se marcaram presença, saíram do festival com um bom concerto na memória, independentemente do vosso sub-género rock favorito. No primeiro dia, assistimos a actos um pouco mais experimentais, com malabarismo entre cordas, percussão, caixas de ritmos e muitos efeitos diferenciados. No segundo dia, a oferta flutuou mais sobre técnicas rigorosas e bem estabelecidas. Com uma grande variedade de estilo nas escolhas, conseguiram um equilíbrio que evita a saturação de um único tipo de sonoridade. Apesar da mistura de som entre instrumentos e vozes não ser perfeita em todos os concertos, o nível de volume esteve sempre no ponto.

SemiCirco

Pedaço Mau

PRÉMIOS CAPOTES DE OURO 2020

Decidimos criar categorias exclusivas para alguns celebrar concertos do Capote Fest 2020. Não existem taças físicas, mas o sentimento é bem real. Aqui ficam seis categorias para premiar o que de melhor aconteceu durante o festival.

🏆 Diabo no Corpo 
Cancro

Com uma entrada aparentemente pacata, vestido a rigor com um capote, sabíamos que não ia demorar muito até o vocalista dos Cancro, Tiago Lopes, conseguir que ninguém na sala ficasse indiferente à sua presença. Rapidamente retirou o capote para ficar em tronco nu, no qual se lia a frase “NÃO CHEGA”, escrita a marcador e a destacar-se no meio do peito. Depois disso foi o caos… Cantou de boxers, atirou o microfone ao chão vezes sem conta (queremos saber qual é a marca!), dançou, saltou para o meio do público… Fábio Jevelim e José Penacho completam este trio maravilha, que são os Cancro. O disco de estreia (“+”) chegou em Outubro de 2019 e a banda apresenta-se da seguinte forma: «Cancro são a banda nascida das cinzas das fogueiras de cantautores e vieram para lhes queimar as violas, punk feito de 0’s e 1’s aos berros pelo ser humano em cima de guitarras sujas e chorosas».

🏆 Melhor Interacção com o Público
Baleia Baleia Baleia

Baleia Baleia Baleia foram, simultaneamente, os mais simpáticos e os mais interactivos. Entre as músicas, conversavam com a plateia como não aconteceu em mais nenhum concerto, sempre com humildade e atitudes de louvar. A boa disposição positiva combinou com a boa performance, não fosse Manuel Molarinho, um rei dos palcos, recebendo uma grande ovação de «SÓ MAIS UMA!» no final. Só por si, um prémio justo para a boa dose de pop esfregado em punk, com um cativante dinamismo entre o par de músicos.

🏆 Requinte Instrumental
Marvel Lima

A última banda agendada para o dia 6 de Março agrupou cinco alentejanos de Beja em palco para composições rock progressivas com cheirinho latino, repletas de detalhes cativantes. Músicos bastante técnicos e com olhos na perfeição que apresentaram uma sinergia em grupo bem requintada. “Mal Passado”, editado pela Rastilho Records em Fevereiro, esteve em destaque e assume novas influências sonoras enquanto se mantêm fiel à sonoridade mais propulsiva do seu disco antecessor. Se soa menos pesados, ao mesmo tempo parecem mais requintados.

🏆 Senhores do Mosh
ThrashWall

Tal como o nome indica, os Thrashwall destilam thrash por todos os poros. Com uma estética bem firma nos pressupostos do género na década de 80, fomos agredidos com músicas rápidas do início ao fim, volume extremo e riffs de guitarra para dar e vender. Não possuem o groove crossover dos seus vizinhos de Redondo, os Mindtaker, mas sempre a abrir e a jogar em casa, conseguiram ter o público com eles e não faltaram remoinhos de mosh na linha da frente.

🏆 Heróis da Cidade
Uaninauei

O primeiro concerto dos Uaninauei, após seis anos em cativeiro, aconteceu no Capote Fest. O regresso da banda, nascida e criada em Évora, aos palcos, foi altamente aclamado pelos presentes que receberam uma performance dedicada, sentida e com algumas surpresas. José de Saruga, que substituiu Daniel Catarino em alguns concertos no passado, subiu a palco para uma perninha nos vocais. A emoção estava evidentemente no ar, com os refrões mais orelhudos a serem completados pelas vozes da sala. Évora já tinha saudades de Uaninauei.

🏆 “O” Concerto do Festival
Miss Lava

Costumam dizer que o melhor fica para o final e neste caso, quem o diz, tem toda a razão. Com um som excelente, tanto a nível de equalização e mistura para a sala, os Miss Lava fizeram valer a sua maior rodagem e elevaram a fasquia com um bagaço de concerto. Apresentaram várias músicas do novo álbum, “Doom Machine”, a ser editado em 2021, e podemos dizer que vem aí bomba. Potência sonora e execução de melodias na perfeição a fechar o palco principal do festival.

Para terminar, é natural que haja uma outra ponta a limar, principalmente ao nível de horários (algo comum no roteiro menos mainstream dos festivais e eventos em Portugal), mas a verdade é que quem vai ao Capote, quer voltar.