Steve Morse, guitarras e aviões

Steve Morse, guitarras e aviões

Nero

Os Deep Purple estão a gravar no Algarve. Steve Morse fala-nos dos Flying Colours, de filosofia de guitarra e das semelhanças entre tocar o instrumento e ser piloto de aviação.

Que se pode esperar, nestes dias, de uma lenda da guitarra como Steve Morse? Um novo disco a solo, onde procure a melhor exibição das sua carreira? Não. Prefere rodear-se de bons amigos e fazer boa música. O guitarrista, que se encontra a gravar novo disco com os Deep Purple, no Algarve, falou dos Flying Colors, com quem gravou em 2012.

Por José Manuel Lopéz

Como surge uma super banda como os Flying Colors?
O Bill Evans, o nosso produtor executivo, apresentou a ideia ao Neal Morse e a mim. Na verdade, até íamos fazer isto com o Kerry Livgren [Kansas], mas devido a problemas de saúde ficou impedido de juntar-se-nos.

Olhando a cada integrante da banda, podemos ver antecedentes de rock, country, prog metal, etc. Como acabam por aglomerá-los e fazê-los soar tão bem, com vozes tão pop?
O Casey e o Neal possuem vozes maravilhosas e atraentes, ao ponto de qualquer coisa que cantem soar logo melhor.

O ritmo é o latido do rock n’ roll

O Mike Portnoy afirmou que, no início, poderia parecer que havia «demasiados chefs na mesma cozinha». Como encontrou cada um o seu sítio?
Todos temos imensos anos de experiência e sabemos como fazer música. Num grupo com estas características, todos vêem as coisas exactamente da mesma maneira. Votamos e chegamos a consensos, como se faz em todas as bandas.

Canções como “The Storm” poderia ser um hit comercial, graças à sua melodia, à textura pop das vozes e arranjos de estrofes e refrão. Têm o mainstream como objectivo?
O nosso objectivo era fazer um grande disco. Não sabíamos no que se transformaria o todo, só o soubemos quando terminámos.

E qual o papel da guitarra na banda?
O engenheiro de som teve controlo total sobre o que acabaria por ficar no disco e o que sairia. Do meu ponto de vista, colheu muitas coisas interessantes das estrofes para ficar mais comercial. Basicamente, compus e gravei os solos.

Regra geral, que lugar deve ocupar a guitarra numa banda?
Cada instrumento deve ser parte da fábrica, mas a guitarra, particularmente, é bastante rítmica por natureza. O ritmo é o latido do rock n’ roll. A guitarra pode ser também uma voz solista, com força para ideias melódicas e expressividade. Qualquer um diria que sou guitarrista, com o que acabo de dizer…

Acreditas que esta não vai ser mais uma daquelas bandas que se criam para um disco e tour pontuais?
Queremos fazer outro disco. As digressões serão mais difíceis, devido às diferenças de agenda. Procuramos sempre encontrar o melhor momento para promover a banda, mas temos muitos “conflitos” com os planos das bandas de cada um, planos esses que podem mudar, quer gostemos ou não.

Um bom músico é como um camaleão que deve manter a sua identidade musical

Provavelmente, os vossos concertos reúnem uma audiência maioritariamente composta por músicos. Alguma vez sentes pressão por estar a ser “observado”?
Sempre houve músicos nos meus concertos, é algo que me parece natural. De facto, com os Dixie Dregs, os músicos sentam-se na primeira fila, com as suas namoradas a morrer de tédio, porque não temos vozes.

Já trabalhaste em trios, com instrumentos diferentes. Que diferenças…
Deixa-me dizer que um bom músico é como um camaleão que deve manter a sua identidade musical.

Não abdicas da tua MusicMan, mas haverá alguma guitarra lendária que nunca poderás ter?
Não costumo pensar nas ferramentas que uso. Tento gastar a minha energia naquilo que toco, para que a canção soe melhor. As conversas técnicas encantam-me, mas não sinto necessidade de usar outras guitarras.

Nem archtops?
Não. Ainda que, pessoalmente, não tenha nada contra elas.

Os The Flying Colors são compostos por (desde a esquerda): Dave LaRue, Neal Morse, Steve Morse, Casey McPherson e Mike Portnoy. Editaram o álbum homónimo e de estreia em 2012.

Os The Flying Colors são compostos por (desde a esquerda): Dave LaRue, Neal Morse, Steve Morse, Casey McPherson e Mike Portnoy. Editaram o álbum homónimo e de estreia em 2012.

Alguma fobia de palco?
Simplesmente, quero o subwoofer seja o mesmo de sempre, moderno e muito alto.

Encontras algum ponto em comum entre ser piloto e a guitarra? (Steve trabalhou como piloto comercial, no final da década de 80)
Sim. Um bom piloto tenta sempre ver mais além, para antecipar manobras em zonas problemáticas. Um piloto que estuda e treina enfrente muito bem as dificuldades. Voar é estimulante e inspirador, tal como a música.