Eddie Vedder, duas horas para ouvir Black

19/07/2014
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Um concerto para fãs e muito pouco mais.

Durante duas horas Eddie Vedder alimentou o ego com o banho de multidão que o esperou na Herdade do Cabeço da Flauta. Cansaço de uma banda que há muito deixou de ser aquilo que para muitos ainda representa ou andropausa, o icónico vocalista apresentou um concerto que revela a sua adoração por nomes como Neil Young ou Lennon, mas que mostrou claramente que Vedder não é músico para estar duas horas em cima de um palco apenas com uma guitarra (ou ukelele, pior ainda). Não tem a destreza ou dinâmica do seu mestre, Young, nem o misticismo de Jeff Buckley.

Vedder que, ao longo da sua carreira, sempre revelou uma atitude anti-indústria é hoje a figura central, leia-se única, de um artifício que se alimenta do fervor dos seus fãs. Para esses, este terá sido o momento do ano e é compreensível que assim seja, em seu abono, Vedder esforçou-se por traduzir a intimidade que o setting do palco promete e reduzir a distância imposta pelo fosso. Tentou, como sempre, ler português, simulou beber vinho tinto, conversou bastante com o seu público e ainda desejou os parabéns à Patrícia. Mas com o decorrer de uma setlist que descaracterizou o legado dos Pearl Jam, até o próprio público (ainda que o venha negar), inconscientemente, começou a dispersar a sua atenção, com as conversas paralelas ao concerto a alastrarem por toda a audiência e a subirem em ruído. É que a maioria dos arranjos, situados num shell voicing Ré-Dó-Sol repetido exaustivamente, causam desgaste auditivo.

A setlist, com arranjos repetitivos, foi descaracterizando o legado dos Pearl Jam e clássicos intemporais.

As excepções a essa dispersão foram poucas, “Whislist”, “You’ve Got To Hide Your Love Away”, “Imagine”, “Last Kiss”,“Better Man”, “Black” ou “Hard Sun”, e quatro dessas canções nem sequer são suas. Sem arrogância, parece ser até frustrante para Vedder que o grosso do público não perceba que está a ouvir Pink Floyd, “Brain Damage”, ou Dylan, “Masters of War”, que partilhou com os arranjos improvisados de Legendary Tigerman.

Há duas coisas: Vedder é um excelente cantor e a idade não lhe está a delapidar a voz e “Black” é uma das melhores canções de todos os tempos. Se isso é suficiente para um concerto… é quase.

Foto: Pedro Mendonça

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