Eddie Vedder, duas horas para ouvir Black

2014-07-18, Herdade do Cabeço da Flauta, Meco
Nero
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Um concerto para fãs e muito pouco mais.

Durante duas horas Eddie Vedder alimentou o ego com o banho de multidão que o esperou na Herdade do Cabeço da Flauta. Cansaço de uma banda que há muito deixou de ser aquilo que para muitos ainda representa ou andropausa, o icónico vocalista apresentou um concerto que revela a sua adoração por nomes como Neil Young ou Lennon, mas que mostrou claramente que Vedder não é músico para estar duas horas em cima de um palco apenas com uma guitarra (ou ukelele, pior ainda). Não tem a destreza ou dinâmica do seu mestre, Young, nem o misticismo de Jeff Buckley.

Vedder que, ao longo da sua carreira, sempre revelou uma atitude anti-indústria é hoje a figura central, leia-se única, de um artifício que se alimenta do fervor dos seus fãs. Para esses, este terá sido o momento do ano e é compreensível que assim seja, em seu abono, Vedder esforçou-se por traduzir a intimidade que o setting do palco promete e reduzir a distância imposta pelo fosso. Tentou, como sempre, ler português, simulou beber vinho tinto, conversou bastante com o seu público e ainda desejou os parabéns à Patrícia. Mas com o decorrer de uma setlist que descaracterizou o legado dos Pearl Jam, até o próprio público (ainda que o venha negar), inconscientemente, começou a dispersar a sua atenção, com as conversas paralelas ao concerto a alastrarem por toda a audiência e a subirem em ruído. É que a maioria dos arranjos, situados num shell voicing Ré-Dó-Sol repetido exaustivamente, causam desgaste auditivo.

A setlist, com arranjos repetitivos, foi descaracterizando o legado dos Pearl Jam e clássicos intemporais.

As excepções a essa dispersão foram poucas, “Whislist”, “You’ve Got To Hide Your Love Away”, “Imagine”, “Last Kiss”,“Better Man”, “Black” ou “Hard Sun”, e quatro dessas canções nem sequer são suas. Sem arrogância, parece ser até frustrante para Vedder que o grosso do público não perceba que está a ouvir Pink Floyd, “Brain Damage”, ou Dylan, “Masters of War”, que partilhou com os arranjos improvisados de Legendary Tigerman.

Há duas coisas: Vedder é um excelente cantor e a idade não lhe está a delapidar a voz e “Black” é uma das melhores canções de todos os tempos. Se isso é suficiente para um concerto… é quase.

Foto: Pedro Mendonça

SETLIST

  • Corduroy
    Throw Your Arms Around Me
    Brain Damage
    Sometimes
    Wishlist
    Can’t Keep
    Sleeping By Myself
    Without You
    Tonight You Belong to Me (acompanhado por Cat Power)
    The Needle and the Damage Done
    Just Breathe
    I Am Mine
    Far Behind
    Rise
    Immortality
    Masters of War
    You’ve Got to Hide Your Love Away
    Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town
    Imagine
    Unthought Known
    Last Kiss
    Better Man
    Lukin
    Black
    Porch
    Hard Sun
    Keep on Rockin