Enjaulado com os Asimov

Enjaulado com os Asimov

2016-03-24, Lounge
Tiago da Bernarda
7
  • 9
  • 7
  • 4

O Lounge aguardou o regresso do duo do Cacém, na quinta-feira passada, com casa cheia.

Apanhar um concerto lotado no modesto Lounge, em Lisboa, não é apenas maçador. É excruciante, é claustrofóbico, é desconfortável. Mas, na quinta-feira passada, houve uma boa causa para aguentar com tudo isso. Os Asimov regressaram para apresentar o seu terceiro álbum, “Truth”. E pode-se dizer que valeu a espera. O projecto de Carlos Ferreira e João Arsénio já pratica a “escavacagem” roqueira há alguns anos e é sempre um espectáculo vê-los fazê-lo ao vivo. Mas havia uma contrapartida: não sobrava muito espaço para o efeito.

Ali enjaulada, num círculo vedado por entusiastas sedentos pelas novas malhas, aquela dupla engenhosa mal arranjou espaço para o respectivo gear. Lá conseguiram montar o seu 70’s vibe: Orange TH 30 encostado lá atrás (com o clássico mamute de brincar em cima) e a bateria, de bombo aberto com almofadinha, contra o balcão do canto. Nem se conseguia ver bem a pedaleira, mas pareceu ver umas edições escavacadas ou reedições da Electro-Harmonix no meio dos brinquedos. Estavam prontos.

Quem estivesse demasiado encostado arriscava-se a levar com um coice do braço da guitarra.

E, na sua postura “no bullshit”, arrancaram rapidamente. Desde o início, torna-se evidente a evolução deste “Truth”. Não é bem heavy rock, não é bem psych rock, não é bem desert rock. É mais um “rasgar-o fabrico-espaço-temporal-enquanto-fumam-peiote-rock”.

E a teatralidade continua forte. Carlos Ferreira ainda teve de avisar aos da frente que se podiam aleijar. E percebia-se porquê. De pernas flectidas e com os caracóis a dar a dar, quem estivesse demasiado encostado arriscava-se a levar com um coice do braço da sua guitarra. Esta, por vezes, até parecia que tinha vida própria. Isto porque o líder xamã do Cacém nunca se acanhou durante a actuação. Aquela jaula humana não pareceu incomodá-lo. Pelo contrário, até dava mais pica. Nadou em cima dos pedais, esfregou a guitarra na cara de quem atravessasse o seu caminho e, se fosse preciso, olhá-los-ia nos olhos enquanto o fazia.

De resto, não fogem muito à fórmula base dos Asimov. Solos explosivos, espaço para jam, reverbs manhosos, uma bateria que consegue acompanhar a “demência” do guitarrista e uma mão cheia de invocações ao Iommi.

Foto de entrada gentilmente cedida por Pedro Roque/Eyes Of Madness! – galeria completa.