Um sismo chamado Swans

Um sismo chamado Swans

2017-06-09, NOS Primavera Sound 2017
Pedro Miranda
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De todas as experiências proporcionadas pelo NOS Primavera Sound deste ano, quase nenhuma (sendo a de Death Grips a mais óbvia excepção) poderia ter sido tão ingratamente específica quanto a de Swans.

Muito mais que qualquer outro acto do cartaz, a sua apreciação estava, à partida, condicionada por uma profunda sintonização com as suas guias estéticas básicas: estruturas musicais não-convencionais, temas que excedem largamente os dez minutos de duração, repetição corrosiva e alternância entre longos períodos de quase silêncio e de ruído ensurdecedor. Cumpridos estes requisitos, para os quais a característica sobreposição de horários do Primavera Sound tratou de contribuir, dificilmente poderia haver performance mais gratificante.

Pois se é verdade que esta descrição encaixa no perfil de muitas bandas agrupadas sob o subgénero do post-rock que o grupo encabeçado por Michael Gira representa, também é difícil encontrar outro grupo que o execute com a mestria que se encontrou no “Palco .”. O modo absolutamente sublime como Swans conduziam a plateia por paisagens sonoras débeis, transtornadas e depois completamente enlouquecidas é difícil de imitar e muito mais de reproduzir, mesmo com os problemas técnicos que se verificaram – visíveis ao olho, mas indiscerníveis ao ouvido, tamanha era a harmonia demonstrada pelo sexteto em palco. E Gira, o epicentro do tremor de terra, que quando não tocava guitarra dirigia com as mãos, qual maestro, os níveis de intensidade emanados pelos restantes elementos, pontuava as inacreditáveis duas horas de espetáculo com a sua voz, em iguais partes grave, imponente e possessa, dando direção a uma música que, mesmo sem ela, falaria por si.

© Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography

Swans pode não ser (certamente não é) para todos, mas tudo aquilo que são merecem, pertence-lhes por direito. Munidos de energia crua, compasso incorruptível e execução magistral, justificaram com grandeza a aduladora reputação que construíram como um dos mais venerados nomes do circuito alternativo – é nesse negócio que impera, afinal, o NOS Primavera Sound. E a resposta que receberam do lado de cá, o de um pedaço lotado e maravilhado do Parque da Cidade do Porto, não pecou por comparação. Nem que seja por terem reiterado a confiança de que, por maiores que sejam as alternativas apresentadas (Bon Iver tocavam em simultâneo no Palco NOS), a sua música, transgressiva e desafiadora tal como é, terá sempre lugar no coração dos portugueses.

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