The National, União Recíproca

The National, União Recíproca

2019-12-12, Campo Pequeno
António Maurício
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Ver The National ao vivo é uma experiência completa, com momentos de união e actos voluntários por parte da plateia. Com um pé na sonoridade do novo álbum “I Am Easy to Find” e outro pé nas músicas mais apreciadas da sua discografia pelo público, o Campo Pequeno, em Lisboa, recebeu mais um espectáculo inigualável da banda.

Quantas vezes estiveram os The National em Portugal? 17? 18? Muitas. É daquelas bandas sobre as quais a frase «estão sempre cá!» não é um exagero. Mesmo com visitas recorrentes, o concerto no Campo Pequeno esteve esgotado. Foi o último concerto da banda em 2019. Ironicamente, nessa mesma noite, foram confirmados no cartaz do Rock in Rio 2020. Não queremos entrar por caminhos científicos, vamos afirmar que o argumento de que os portugueses adoram esta banda é um facto.

Editaram o álbum “I Am Easy to Find” no dia 17 de Maio de 2019. Este projecto, mais concentrado na suavidade lírica e instrumental, com canções que reúnem características de baladas seria, evidentemente, o ponto principal da presença no Campo Pequeno. Matt Berninger contou com as vozes de Gail Ann Dorseyno,  Sharon Van Etten ou Lisa Hannigan no álbum e ao vivo partilhou a performance vocal com Kate Stables, também conhecida como This Is The Kit. Existia o receio de que o concerto pudesse ser demasiado calmo, encostado a este novo capítulo sonoro. Não foi o caso. Permaneceram no meio do campo, com um pé nesta sonoridade com instrumentais em bpm’s reduzidos e com o outro nas músicas mais apreciadas pelo público.

A abertura com “You Had Your Soul With You”, “Quiet Light” e “The Pull of You” começou por apresentar as dinâmicas do novo álbum. Se pensávamos que não iam conseguir alcançar o mesmo poder sonoro para encher uma grande sala, em comparação com os aclamados trabalhos anteriores, estávamos enganados. As músicas têm mais corpo ao vivo, resultado da vasta gama de instrumentos em palco: duas baterias, duas guitarras, um baixo, teclados ou instrumentos de sopro. Um pouco mais de tensão em “Quiet Light” começou a aquecer o público, com salpicos de sintetização pelo meio.

Em “The Pull of You”, Kate Stables começou a assumir uma posição mais assertiva (ao longo do concerto foi ficando cada vez mais à vontade). Em “Oblivions” deu-nos a sua melhor performance, no maior dueto da noite, onde trocava letras sobre relacionamentos, dúvidas e sentimentos de confiança.

O álbum “Trouble Will Find Me”, editado em 2013, continua a proporcionar os melhor momentos em palco.

A radiante reacção do público ao voltar a ouvir canções de “Trouble Will Find Me”, um dos discos, se não “o” disco, mais importante da carreira dos The National, é imensamente transparente. “Don’t Swallow The Cap”, “I Need My Girl” (onde surgiu o arrastão de telemóveis) ou “Graceless” fazem movimentar a plateia em pé com vigor e as letras são cantadas nos vários cantos da sala. É um registo um pouco mais “upbeat”, dentro do estilo melancólico da banda.

“Day I Die” e “The System Only Dreams In Total Darkness”, do álbum “Sleep Well Beast”, o sétimo na discografia, foram destaques da noite. Guitarras a dominar a sonoridade com perfeição, sem se perderem na confusão sonora que, por vezes, emergia no Campo Pequeno; percussão a carregar potência e os graves a acompanharem de fininho. A distorção aplicada em “The System Only Dreams In Total Darkness” também merece uma menção, porque a sua utilização amplificou ainda mais a mensagem da música – uma retrato enigmático sobre a sociedade moderna.

Este trabalho instrumental que, por si só, já se trata composição interessante e criativa, juntou-se à performance cativante de Matt Berninger. Ao vivo, o vocalista é bem mais cru e aplica diferentes tons daqueles criados em estúdio. Talvez o factor que mais se destaca seja o seu carisma. Nunca está sossegado, desce o palco até ao público, pega em telemóveis para se filmar a cantar, entra na plateia, percorre a sala (subiu até ao primeiro balcão!) e por aí fora, incansável.

“Light Years” colocou qualquer fã derretido, por ser uma balada muito bem composta e brilhantemente transportada para o palco

O terceiro destaque do concerto fica para uma música do novo álbum. “Light Years” colocou qualquer fã derretido, por ser uma balada muito bem composta e brilhantemente transportada para o palco. Simples, com o piano a providenciar a melodia acompanhada por pequenos toques dos instrumentos de sopros. No final, Matt Berninger disse-se surpreendido. «Nunca nos ligam as luzes dos telemóveis voluntariamente. Combinaram isto antes de virem para aqui?». Durante a música, as luzes foram aparecendo e naturalmente iluminaram toda a sala. Os portugueses a mostrar que sabem estar e agradar.

A admiração por Jessica Meir, astronauta que está neste momento no espaço, foi expressa em duas músicas. Primeiro, a estreia em tour de “Looking For Astronauts”, e depois, “Terrible Love” já no encore. Apropriadas, evidentemente, pelo título da primeira e pelas letras da segunda: «You were far away…». A fechar o encore, a “Vanderlyle Crybaby Geeks” foi integralmente cantada pelo público. O microfone de voz foi virado para o lado da plateia e a instrumentalização foi unicamente composta por uma guitarra acústica. Um momento bonito, de união entre banda e fãs, que eccou triunfalmente antes do fecho da cortina.

Ver The National ao vivo é uma experiência completa. Não há muita palheta, apesar do concerto ter durado mais de duas horas. Matt Berninger fala pontualmente e com algum humor pelo meio, mas não se “estica” muito e entrega-se ao palco como se sentisse as letras na pele. O som no Campo Pequeno não foi o mais definido e encontrou algumas dificuldades quando a intensidade e os efeitos entraram a pés juntos, mas não quebrou a imersão aparentada pelas novas dinâmicas ao vivo – instrumentalização alternativa, com destaque para os instrumentos de sopro.

Os The National estão sempre cá, mas o espectáculo nunca se repete.

SETLIST

  • You Had Your Soul With You
    Quiet Light
    The Pull Of You
    I Should Live In Salt
    Don’t Swallow The Cap
    Bloodbuzz Ohio
    Hey Rosey
    Oblivions
    Where Is Her Head
    I Need My Girl
    This Is The Last Time
    Looking For Astronauts
    Day I Die
    The System Only Dreams In Total Darkness
    Rylan
    Light Years
    I Am Easy To Find
    Graceless
    Fake Empire
  • Pink Rabbits
    Mr. November
    Terrible Love
    About Today
    Vanderlyle Crybaby Geeks