Vintage Trouble, a cura da alma

Vintage Trouble, a cura da alma

2014-07-17, Herdade do Cabeço da Flauta, Meco
Nero
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Há muito poucas probabilidades de que alguma vez tenha havido uma banda, num dos inúmeros festivais portugueses, com uma performance superior à dos Vintage Trouble.

Pode ter havido actuações igualmente boas, diferentes, noutro registo sonoro, etc., mas superior… Rhythm & blues (daquele a sério, não o R&B que passa incessantemente na rádio e tv), rock n’ roll, e um soul gigante. A banda de Los Angeles, que tem apenas um álbum, “The Bomb Shelter Sessions” (no qual incidiu a setlist), tem tido uma ascensão meteórica e provou no SBSR porque o está a conseguir. Se provou, Mãe do Céu!

É bonito um mundo em que os músicos convertem pessoas. Em que a religião são os tons simples da escala pentatónica.

A história começa da mesma forma que sempre sucede com grandes bandas. O baterista Richard Danielson e o baixista Rick Barrio Dill (que ostentou um deslumbrante American Design Experience Vintage Precision) formam uma parede de groove, à qual se pode atirar tudo, que tudo vai colar. Dessa forma, o núcleo essencial do grupo mantém-se fiel às raízes das lendas do soul, mesmo quando Nalle Colt acrescenta muito mais músculo de guitarra do que aquele que se ouve no cânone do género. E que som tinha Colt, apetece dizer «põe-te a pau Joe Bonamassa» ou «já foste John Mayer».  Portanto, secção rítmica demolidora, guitarrista cheio de mística e feeling, e Ty Taylor.

O frontman é um furacão, a reencarnação de James Brown. Um neo-pregador, que tornou a indiferente e escassa assembleia que, ao fim da tarde, se encontrava à frente do palco principal, numa massa fervorosa e fanática do rock n’ roll. Ficamos com a ideia de que é bonito um mundo em que os músicos convertem pessoas. Em que a religião são os tons simples da escala pentatónica. Ty Taylor conduziu uma liturgia que lavou a alma de quem esteve presente. Literalmente, o palco não foi suficientemente grande para o vocalista.

Fotos: Pedro Mendonça