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Return To Forever

Romantic Warrior

Columbia Records, 1976-02-01

EM LOOP
  • Romantic Warrior
  • Majestic Dance
  • The Magician
Nero

Para os profundos conhecedores e fãs de Chick Corea (e particularmente para os mais afectos ao jazz), “Light As A Feather” será o grande disco dos Return Forever. Mas se nos remetermos exclusivamente à importância da banda no universo da fusão musical, mais rocker, então “Romantic Warrior” é um álbum que figura como um compêndio perfeito das regras do género.

É o disco com maior preponderância daquilo a que os rockers convencionaram chamar riff, portanto o mais pesado do grupo, sem deixar de lado a extravagância funky e a explosividade virtuosa dos músicos. Assim que a guitarra de Al Di Meola surge poderosa sobre as linhas de sintetização que abrem “Medieval Overture”, percebe-se que estamos diante dum extraordinário álbum, com a propulsividade de Lenny White a intercalar as melodias densas e épicas da introdução do disco.

Se no tema de abertura podemos intuir o que fascinou uma banda como os Opeth, por exemplo, em “Sorceress” pode vislumbrar-se as raízes do que bandas com um cheirinho funk, ainda que díspares na sua estética, como Faith No More, Living Colour, Red Hot Chili Peppers ou até os Extreme, viriam a fazer já na viragem da década de 80 para a de 90. Neste tema, da autoria do baterista que tocou com Corea na banda de Miles Davis, curiosamente é o baixista Stanley Clarke que mais ombreia com a exploração sónica de Chick Corea.

Essa exuberância dos instrumentistas permanece intacta mesmo num tema totalmente acústico como o que empresta o título ao disco. Aliás, ao longo dos dez minutos  de “Romantic Warrior” cada um dos instrumentistas registou solos tremendos, exceptuando White, cuja progressão rítmica ao longo de todo o álbum é suficiente para encher as medidas a qualquer melómano. Os fills, as melodias e frases cruzadas ou harmonizadas dos instrumentos de cordas e sintetização, o groove e dinâmica… Sinceramente, as palavras pecariam sempre por escassas para fazer justiça ao que se escuta. Talvez se possa dizer, para ilustrar de forma simples, que os solos de acústica que Al Di Meola aqui gravou se não são os melhores da sua discografia, andarão muito perto disso. Os que registou (aí com guitarra eléctrica) no último tema do disco… Se conhecerem melhores, por favor digam-nos!

Depois chega o pesadíssimo (sim, não é necessário ter uma guitarra numa afinação barítono para fazer som pesado) tema da autoria de Meola. “Majestic Dance” mantém-nos plenamente arrebatados com o seu denso corpo estrutural, as suas soberbas síncopes e a arrasadora velocidade de harmonizações das semicolcheias. Estes rapidíssimos uníssonos e este peso são ainda mais acentuados no atmosférico tema da autoria de Clarke, “The Magician”, que se torna progressivamente mais complexo e percorre fantasiosamente vários paradigmas de composição ao longo da história da música.

No último (e mais longo) tema, o díptico “The Duel Of The Jester And The Tyrant”, a fusão estética do disco é seguida com coerência, ainda que pareça ser o tema onde Chick Corea mais usa e abusa do seu arsenal de teclados, incluindo os pianos eléctricos Fender Rhodes, Hohner Clavinet e o Yamaha YC45 e a sintetização ARP Odyssey, Micromoog, Moog 15 (modular) e o Polymoog.

Talvez por Corea ter assinado três temas e cada um dos outros músicos ter colocado a sua assinatura num, neste álbum o pianista/teclista creditou apenas os Return To Forever, abdicando de destacar o seu nome na capa do álbum. Seria a consciência de que este line-up aqui estava no máximo das suas capacidades, cada um dos músicos um gigante a deixar uma tremenda pegada na história da música.

Aliás, depois deste álbum, Corea considerou que a banda tinha atingido o seu zénite e optou por reformular a formação dos Return To Forever para o próximo álbum. Todavia, logo no ano seguinte, “Musicmagic” foi um pouco “corta-moca” e ficou aquém da perfeição de execução instrumental deste soberbo trabalho que celebra o seu 45º aniversário em Fevereiro de 2021 de forma triste, em paralelo com a notícia da morte de Chick Corea. A música é para sempre…