Os Unicórnios de Eric Clapton

Os Unicórnios de Eric Clapton

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As Stratocasters de Eric Clapton são sobejamente conhecidas e a sua Strat de assinatura é um dos modelos deste género mais duradouros na Fender. Mas antes de se fidelizar a esse design, o Slowhand usou três guitarras que são autênticos unicórnios. A Fool SG, uma Gibson Firebird I e a Brownie Stratoneck. Eis a história destas guitarras e ainda dos extraordinários e raros Fender Tweed que assinou em 2011.

Ainda antes de ter 20 anos de idade e depois de já ter rodado uma série de bandas incógnitas, Eric Clapton juntou-se aos Yardbirds. Estávamos em 1963 e Clapton substituiu Top Topham, um dos guitarristas que havia fundado a banda. No entanto, os Yardbirds mudaram a sua sonoridade, abdicando do blues em detrimento de uma sonoridade mais comercial e Clapton saiu. Corria o ano de 1965 e o guitarrista nascido em 1945 juntou-se a John Mayall & the Bluesbreakers.

No ano seguinte decidiu criar uma nova banda.Com Jack Bruce e a Ginger Baker formou uma lenda. Os Cream editaram 4 álbuns até 1969. O terceiro, “Wheels Of Fire”, foi o primeiro duplo LP na história da indústria a atingir a Platina, em vendas. O primeiro álbum da banda, “Fresh Cream”, criara uma poderosa mistura de psicadelismo, blues, pop e rock ‘n’ roll. O álbum foi editado em Dezembro de 1966 e, logo no início de 1967, os Cream andavam já nas sessões do segundo álbum e a procurar aumentar o seu sentido psicadélico. E então nasceu a jóia da coroa da banda… “Disraeli Gears”.

Ainda antes de chegar o último disco, os Cream separaram-se em ’68, mas Clapton e Baker permaneceram juntos e recrutaram Steve Winwood e Ric Grech para gravar o único álbum dos Blind Faith, cumprir uma digressão e separarem-se.

Aos 25 anos, Clapton criara já uma enorme reputação, sendo uma das pedras angulares na reinvenção do blues no Reino Unido e responsável, ao lado de Jeff Beck, Jimi Hendrix e Jimmy Page, pela meteórica ascensão da guitarra eléctrica e do hard rock. Continuaria a gravar com outros músicos e em álbuns excepcionais, casos de “Layla And Other Assorted Love Songs”, dos Derek And The Dominos, ou “All Things Must Pass”, do seu grande amigo George Harrison, ambos logo em 1970, mas nesse mesmo ano concentrou-se na sua carreira a solo. Em 1977, após o tremendo sucesso do álbum “Slowhand”, ganhou para sempre essa mesma alcunha. Nada mau para um puto de, nessa altura, 32 anos…

Clapton estabeleceu-se como um dos maiores embaixadores da guitarra eléctrica e pela sua mão vários modelos tornaram-se lendários. A meio da década de ’60 passou a fixar-se progressivamente na Stratocaster, design que é hoje indissociável da sua imagem.

«O que procurava sempre numa Strat era um braço de maple gasto, se tivesse todas essas ­marcas deduzia que tinha sido bastante usada por ser boa. A razão porque a quis foi por ter visto o Buddy Holly a tocar com uma, e todos os discos que ele a tocou soava bastante silenciosa, mas o som… Ele tocava-a como uma guitarra acústica. Em miúdo essa era a minha atracção, (…) então fui ao Marquee ver o Buddy Guy que batia no chão com a guitarra, tocáva-la entre as pernas, detrás da cabeça – todos os truques que esse pessoal usava há bastante tempo – e não usava a barra de tremolo. Pensei: “Este é o som”. E depois, o Hendrix. O Jimi tocava com uma enquanto eu ainda usava uma SG. Não tive uma imediatamente, mas acabei por ter. O problema era encontrar o braço em maple, não existiam, pois todos os modelos nessa altura tinham escalas em rosewood. Somente quando fui em digressão aos Estados Unidos comecei a encontrá-las e experimentá-las em lojas de penhores e comprava 4 ou 5 de cada vez. Fazer o Johnny Cash Show, com o Carl Perkins… Tudo isso em quarteto que ou era calmo, funky ou bastante intenso, sempre graças à dureza desta guitarra».

As suas Stratocasters são já sobejamente conhecidas, mas nessa primeira década há três guitarras que são autênticos unicórnios. Duas delas foram, inclusivamente, recriadas em edições limitadíssimas bem recentemente. A Tele dos Blind Faith e a Firebird que usou nos Cream. A Gibson SG “The Fool” nunca foi replicada oficialmente…

The Fool SG | Durante o reinado dos Cream, a sua SG tornou-se um ícone do psicadelismo e ajudou ao nascimento do lendário “woman tone” de Clapton. Existem rumores de que Clapton adquiriu a SG ao seu amigo George Harrison – o Beatle tinha tocado com uma em “Day Tripper” dos Fabs e deixou de tocar SG, mais ou menos, na mesma altura em que Clapton adquiriu a sua. Outro mistério é o seu ano de fabrico. Alguns pensaram que é de 1961, mas a Gibson só começou a aparafusar o pickguard em seis pontos a partir de ’64. Portanto, provavelmente, trata-se de um modelo de 1964 (ou ’65), mas nunca saberemos – quando a guitarra foi pintada, o número de série desapareceu.

A pintura psicadélica é de dois artistas holandeses. Na sua autobiografia de 2007, Clapton diz: «Simon e Marjike, tinham vindo de Amesterdão para Londres em 1966 e montaram um estúdio a desenhar roupas, posters e capas de álbuns. Pintaram temas místicos em cores vibrantes fantásticas e tinham sido contratados pelos Beatles, para quem criaram um vasto mural de três andares na parede da sua Apple Boutique, em Baker Street, Londres. Pedi-lhes que decorassem uma das minhas guitarras, uma Gibson Les Paul», diz o guitarrista. Clapton fala numa Les Paul, porque no início dos anos 60 as SGs era conhecidas por Les Paul SG. A SG foi revestida com primário branco e depois pintada com tinta de esmalte à base de óleo – não sendo um acabamento recomendado para qualquer guitarra. Marijke Koger descreveu o conceito do desenho como «o bem contra o mal, o céu contra o inferno e o poder da música no universo para se erguer acima de tudo como uma força do bem».

Quando Clapton começou a tocá-la, ainda estava instalado o original Deluxe Vibrolo, mas a alavanca foi eventualmente removida e substituída por duas outras tailpiece: outro tremolo Gibson, com uma peça de metal flexível em vez de molas; e uma unidade tipo trapeze sem tremolo. Os afinadores foram mudados e os Klusons de fábrica deram lugar a Grovers. Em 1967, Clapton dizia: «Estou a tocar mais suavemente agora. Estou a desenvolver aquilo a que chamo “o meu som de mulher”. É um som doce, algo como o solo em “I Feel Free”. É mais parecido com a voz humana do que com a guitarra».

Essencialmente, era o som dos PAF da SG, ligados a amplificadores Marshall, com os controlos de tone no mínimo e o volume no máximo. É, precisamente em “Disraeli Gears” que mais se ouve a Fool SG.

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Gibson Eric Clapton 1964 Firebird I | Nas décadas de 60 e 70, mais na de 60, o Slowhand usou várias vezes uma Gibson Firebird, já depois de ter usado amiúde uma Les Paul ES-335 e uma SG. Mas antes de abraçar definitivamente a Stratocaster, é a Firebird de 1964 que Clapton guarda com maior carinho, talvez por estar mais associada aos poderosos Cream, como o próprio recorda: «Recordo uma noite em particular com a Firebird. Foi um concerto dos Cream em Filadélfia, um dos melhores concertos que alguma vez dei».

Em 2019, a Gibson Custom Shop meteu mãos à obra para recriar a famosa Firebird em edição limitada. Os luthiers usaram os mesmos métodos de construção da época e replicaram minuciosamente as dimensões dos modelos de 1964. Cada guitarra Eric Clapton 1964 Firebird I está equipada com um recém-desenvolvido pickup Alnico V Firebird, de modo a obter o fogoso volume e timbre dos modelos originais. Descobre tudo sobre essa guitarra no artigo que lhe dedicamos.

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Fender Blind Faith Telecaster | Foi também na época dos Cream que Clapton comprou a famosa “Brownie” – uma Stratocaster com corpo em alder, braço de maple e pintura tobacco sunburst – que se tornaria depois a guitarra de back-up à iconográfica Stratocaster “Blackie”. Depois, como dizemos acima, vieram os Blind Faith, cujo álbum foi gravado com a lendária “Brownie Stratoneck”, uma Telecaster com o braço de Strato da “Brownie”.

Os Blind Faith estrearam-se em 1969 diante de 100,000 pessoas, no Hyde Park, e na passagem dos 50 anos desse concerto mítico a Fender Custom Shop recriou essa guitarra, com um acabamento Journeyman Relic num corpo em duas peças de alder. O braço Strat (maple-on-maple) possui 21 trastes e um perfil “V”. Nos pickups surgem os Custom Shop ’63, bobinados manualmente. A ponte é um design vintage Tele. Podem descobrir mais sobre estas réplicas no artigo que lhes é dedicado.

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Clapton acabou por se associar à Fender e fidelizar-se nessa ligação. Naturalmente, possui uma Stratocaster de assinatura. Na verdade é um dos modelos de assinatura há mais tempo em produção pela Fender. Com um design clássico e excepcional versatilidade sónica. Podem descobrir ou relembrar as características da Clapton Stratocaster no site oficial da Fender. Mas foi há dez anos atrás que surgiu um dos grandes lançamentos da década, os amplificadores Fender de assinatura de Eric Clapton em três modelos: EC Twinolux, EC Tremolux e EC Vibro-Champ.

Cada um é uma variação específica baseada em três clássicos Fender tweed tube amps dos anos 1950s – o ’57 Twin, ’57 Deluxe e o ’57 Champ,  a que Eric Clapton deu preferência para sons específicos em variadas alturas da sua carreira. Estes amps foram feitos à mão nos Estados Unidos, com pormenores interessantes debaixo do chassis, especificados pelo próprio Clapton, que incluem um circuito tremolo da era dos ’50s (que produz um pulsar mais intenso do que os circuitos de tremolos mais modernos da Fender) e um switch atenuador de potência que reduz o sinal para a coluna (e no caso do EC Twinolux pode até anular uma das colunas de modo a reduzir ainda mais o Sinal de saída).

Os três amps EC Series têm um tratamento estético que elegantemente fazem jus a um artista com a estatura de Clapton. Cada um é construído de forma robusta com uma caixa de pinho sólido montada à mão e evocam a era de ouro de 1950, com o acabamento lacado em Tweed, com a grelha vintage-style castanho/dourado e a pega em cabedal. E cada amplificador tem um símbolo de “EC Series” na parte inferior direita e a assinatura de Clapton no painel de controlo.

Os amps foram uma edição limitada, já não são produzidos pela marca. Portanto, são também unicórnios. Felizmente, a AS teve a oportunidade de provar um destes extraordinários amps, na altura no showroom da sede ibérica da Fender (agora extinta), nos arredores de Madrid.

O EC Tremolux é baseado no vintage ’57 Deluxe, e está à altura tanto da tradição desse amp clássico como do guitarrista que supervisionou agora o desenvolvimento. Com o circuito completamente hand-wired, o Tremolux tem dois modos de input [High e Low Gain], suportados por três válvulas 12AX7A na secção de preamp e duas 6V6 no power; os potenciómetros revelam simplicidade, apenas Speed [para controlar o Tremolo], Tone [que abre ou fecha os espectros de equalização] e Volume. Com 12 watts de potência, o combo é completado por uma coluna 65 Watt Celestion Heritage G12-65 a 8 ohm, de 12 polegadas.

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