#SupportYourLocalRecordStore | Pérolas Esquecidas de Gary Moore, John Sykes & Randy Rhoads [Carbono Amadora]

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Nero

Para lutar contra o confinamento e contra a pressão sobre as pequenas lojas de discos, propomos o desconfinamento mental com alguns álbuns extraordinários. Casos de três discos “esquecidos” de outros tantos génios da guitarra eléctrica, comprados na Carbono Amadora.

O mundo está actualmente a lutar contra a pandemia do Coronavírus COVID-19. Uma vez mais estamos sob medidas severas de comportamentos individuais e sob um novo confinamento, os concertos e festivais mais próximos foram cancelados/adiados e os espaços nocturnos estão novamente fechados ou com lotação muito limitada. Ainda é muito cedo para determinar o fim desta situação, mas toda a indústria musical tem sofrido com um tempo de “suspensão” tão prolongado. Os mais atingidos serão, inevitavelmente, os artistas e agentes de menor dimensão, como as lojas de discos locais.

É por isso que publicamos esta rubrica, evocando discos que comprámos em lojas de discos “à moda antiga”. Vale a pena recordar que podem e devem continuar a comprar discos, essa é uma das cinco medidas normais para ajudar bandas e pequenos comerciantes. Se quiserem esclarecer todas as vossas dúvidas no que respeita a encomendas, pode ler o artigo no qual a AS contactou a Dra. Nádia Gonçalves Ferreira, médica, que nos deixa recomendações sobre como proceder com as encomendas que nos chegam.

Depois dos Melvins e da Bunker Storedos Stones e A Record a Day e dos Tribulation, via Louie Louie, eis uma tríade. Três discos porque foram todos comprados numa das lojas que mais alimentou a minha colecção, a Carbono da Amadora, onde o Luís Lamelas esteve muito anos, antes de se lançar na Glam-O-Rama (a qual também será alvo destes artigos), e onde permanece esse porreiro que é o Luís Silva. E porque são três discos de enormes guitarristas que, por este ou por aquele motivo, foram algo “esquecidos” e revelam enormes ligações entre Randy Rhoads, Gary Moore e John Sykes. Os dois últimos têm em comum a sua passagem nos Thin Lizzy, ainda que não tenham convergido.

Gary Moore saiu da powerhouse irlandesa para se firmar em nome próprio e ganhou uma enorme reputação como bluesman, cuja maior assinatura é “Parisienne Walkways”, mesmo que nunca tenha abdicado de perseguir o hard rock. Sykes esteve nos Thin Lizzy na primeira metade dos anos 80, a sua década mais prolífica num sentido criativo. Além da banda de Phil Lynott, esteve antes num vibrante período dos Tygers Of Pan Tang, e depois passaria pelos Whitesnake, assinando “Slide It In” e, principalmente, o disco homónimo de 1987, onde reformulou o som da banda de David Coverdale com grande sucesso comercial e junto da crítica especializada. Talvez embalado por essa aclamação, criou a sua própria banda, os Blue Murder e a Geffen, reconhecendo o seu trabalho no sucesso dos Whitesnake, não hesitou em oferecer-lhe contrato discográfico.

O homónimo álbum de estreia dos Blue Murder é uma obra-prima do hard rock, produzida pelo guru Bob Rock e contando com um line-up fabuloso, composto por Tony Franklin (baixo), Carmine Appice (bateria) e o próprio John Sykes na guitarra e na voz. No final dos anos 80 poucos guitarristas se mostravam na sumptuosa forma técnica de Sykes, os riffs e melodias são vibrantes neste trabalho que junta o som clássico do hard rock da década de 70 com o shredding da década de 80 e faz algumas referências charmosas ao Egipto Antigo e à sua mais tardia dinastia ptolomaica. Canções como “Riot”, “Blue Murder”, “Jelly Roll” ou “Out Of Love” mostram Sykes no seu melhor, quer na guitarra quer na voz e depois “Valley of the Kings”, malhão que vale uma discografia. Desde a cadência do tema, assente numa atmosfera mediterrânica, com o riff a fazer slide descendente para a route note, que percebemos estar diante dum tema épico. O solo, em termos melódicos e de execução técnica, é de cortar a respiração! Actualmente, é considerado como um dos melhores trabalhos de produção de Bob Rock, ao lado do “Black Album” dos Metallica.

Foi pela mesma altura que Gary Moore reuniu também uma banda estelar, com Bob Daisley no baixo, Cozy Powell na bateria e os sintetizadores entregues a Neil Cartes e a Don Airey, para gravar “After The War”. O último álbum em que o guitarrista se moveu dentro dos parâmetros do hard rock e do heavy metal, abraçando depois o blues de forma exclusiva, até abraçar novamente o rock clássico em  “Dark Days In Paradise”, quase dez anos depois. Aqui funde categoricamente riffs mais pesados com motivos musicais celtas, fusão que soa impressionante no tributo ao seu falecido amigo Phil Lynott, em “The Blood Of Emeralds”, e com aquele seu tremendo coração melódico que se ouve distintamente em “The Messiah Will Come Again”.

E é o álbum onde nos é deixado o registo de uma realidade alternativa. Quando Ozzy Osbourne deixou os Black Sabbath e decidiu lançar-se a solo, antes de encontrar Randy Rhoads, Gary Moore foi um dos guitarristas com quem mais trabalhou. Por isso acabou por, naquilo a que chamou uma enorme honra, emprestar a sua voz a “Led Clones”, o malhão central deste disco que goza com bandas que se colavam à sonoridade e imagem dos colossais Led Zeppelin.

Precisamente, antes de se juntar a Ozzy, Randy Rhoads gravou dois álbuns com os Quiet Riot. E se não fosse por Randy, estes discos estariam esquecidos de todo, tendo sido edições exclusivas da CBS no Japão. Ao contrário do primeiro disco, este é algo mais que uma demotape com pouco a destacar a não ser a sua importância histórica na carreira de Randy, ainda a milhas daquilo que viria a ser. Bem colado ao glam rock (olá fãs dos KISS e dos Sweet), este trabalho já apresenta algumas malhas que valem a pena ter em colecção também pelo prazer melómano, caso da propulsiva “Slick Black Cadillac”, da quadradona “Eye For An Eye”, da baladinha “Afterglow (Of Your Love)” e, especialmente, “Trouble”. Neste tema já se somos brindados com aqueles solos clássicos de Randy, com licks que vão reconhecer facilmente se são vidrados em “Blizzard Of Ozz”. Naturalmente que a edição que podem ver na fotografia (na entrada do artigo) é uma versão martelada, mas ainda assim rara.

Carbono Amadora situa-se na R. Elias Garcia 241, sendo a loja 14 (1º piso) das Galerias São José. Loja espaçosa, cheia de luz e com vista para a animada artéria onde se situa também o emblemático Babilónia. Aí podem percorrer uma vasta lista de discos em vinil (principalmente) ou CD, além de merchandise e também filmes, musicais ou não. O horário (de Segunda a Sábado): 11h às 13h30 e das das 15h às 19h.

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